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Poetriceria VI - Quebrei como um vaso

Sentado no banco de jardim, olho as árvores. A criançada corre sob o olhar atento do pais e um casal de namorados olha-se, voluptuosamente, ao fundo, num banco de jardim como este. As minhas recordações não me permitem emitir um sorriso, ainda que fosse como máscara ténue. No lago, os patos descrevem círculos harmónicos que parecem uma coreografia de bailado. A água espelha tudo. Está suja, dirty like me.

Levanto-me, puxo do cigarro e avanço para este, rumo à avenida do descobridor português. Tento não fechar os olhos para não ser assaltado pelas imagens nefastas da desvastação em que estou. Busco, nesse momento, uma corda, uma ponta de cor, uma figura que me tire dali, do preto e branco em que me tornei, da ruína que sou hoje, das pedras negras e húmidas que me cercam e embuscam continuamente.

Ensaio e planeio uma forma de fugir daqui... mas não consigo. Por um segundo penso isso mas os restantes mil dizem-me que é impossível conseguir ir mais além, dobrar o destino e a negra sina que a vida nos dita. Quebrei, como o jarro ou o vaso que vai à fonte e, por descuido, cai. Quebrei e não vou conseguir sair deste entorpecimento. De tanto horror, apetece-me fugir. Não tarda muito amo o torpor. Perdi-me e não me vou encontrar...

Poetriceria V - Falar



- Dr. Fernandes, repare, eu nunca me revelo a ninguém. Nunca! O que acaba de escutar é único, inédito e mais ninguém saberá, por mim, claro.

- Sabe que também não direi nada. É um dever que tenciono cumprir. - Falou com calma. Fumava. Bebia. Este não era um médico normal...

Esteve 2 minutos a percorrer os sofás e o tecto da sala, abespinhando-se de sobremaneira com as sombras que o fogo da lareira lá produzia. A dada altura percebi que não era só por isso. Senti-o como sinto quando as lágrimas estão para chegar. Por fim, inspirou, recostou-se no sofá, bebou um gole do seu gin e disse-me com aspereza:

- Sabe que faz mal e que isso o está a matar por dentro? Imagina a quantidade de sofrimento de que abdicaria? Descarregue em Deus... Nos amigos... Nas putas ou onde quiser, mas precisa de falar! Fale comigo mas não de ano a ano! Fale! Fale!

Terminou o sermão a arfar. E, como se de água se tratasse, engoliu o restante tónico que o fazia falar do que não queria.

- Sabe Dr., agradeço o seu conselho. Milhares já mo deram, uns aos gritos e outros com uma rispidez disfarçada de bondade e suavidade. EU SOU! Não me rebaixo a esse ponto... Acho que estas conversas estão a tornar-se inúteis... É que já nem consigo eu consigo falar e expor o que penso e sinto. Tudo o que me ouviu hoje dizer foi mentira... Ou melhor, foi programado e pensado. Vesti uma máscara que não é a minha. O mais interessante é que ninguém sabe que eu quando digo "sim" isso pode querer dizer: "sim", "não", "talvez", "deves pensar", "penso que sim", "penso que não", "odeio", ... - de repente parei. O Dr. Fernandes olhava-me com um ar incrédulo e extenuante.

Peguei na mala, nos livros e fui-me embora.

Poetriceria IV - sem nada

Ontem fui com o Barbosa a Sintra. Passeamo-nos pelas ruas, pelas quintas... Depois perguntei-lhe:
- Barbosa, tu tens tudo! Tens uma vida dessafogada, uma capacidade única de estar e ter amigos, de te fazeres ver e ouvir. Como te sentes?

- Bem, mas nem tudo são rosas...

- O que são rosas? - disse por entre dentes. - Já não sei o que isso é...

- Rosas são os momentos bons!

- Eu sei o que quiseste dizer... Mas, como sabes, eu já não acredito na vida, pelo menos como tu a vives e como tu a tens. Diz-me: a que é que te agarras quando a tua vida é uma sucessão de erros, quando não tens onde te agarrar, porque lutar?

- Sei lá... A Deus?

- Deus morreu! Deus está morto e enterrado!

- Não enerves, por favor - tentava acalmar-me - tudo tem solução!

- O problema é esse, Barbosa, nem tudo tem solução... E eu sou uma dessas coisas!

Não falamos mais depois. Apanhamos o comboio e rumamos a casa com um "até amanhã".

Poetriceria III - o campo de ouro

O Dr. Fernandes instalara as duas poltronas junto à lareira. O frio daquele inverno assim o exigia, para que pudessemos colocar no cabide os nossos pesados casacos.
- Importa-se que fume? - perguntei sabendo que ele não se importaria.
- Faça favor, está em casa. - retorquiu o outro com a bonomia que lhe é característica.
- Aquilo que me traz aqui é um metáfora. Imagine que tem um campo. Porém, diria, não é um campo qualquer...Tem ouro no seu seio, no seu interior.
- Estaria rico, caro amigo!
- Sim, sem dúvida. Diga-me, então, o que seria normal sentir em relação a ele? - Sigo o percurso do fumo e a rota da cinza que mando para a lareira.
- Coloca-me uma questão aparentemente fácil mas que é difícil no seu cerne. Como não sei onde quer chegar, diria que me sentia feliz por ter tamanha riqueza. Achas que não?
- Acho que sim...
- E você, o que sente?
- Para além da felicidade, sinto medo! - falei sem medo.
- Medo???
- Sim. - falo com calma mas o meu interior revolta-se nas entranhas. - Tenho medo de o perder, receio da cobiça dos outros que vêm esse ouro e, dentro em breve, saberão da riqueza que se encerra no seu interior.
- Mas tem de controlar esse medo. - apelou o outro com calma.
- Tenho? O que sentiria? - arrisquei para saber se, de facto, falava com um homem ou com um E.T.
- Sentiria o mesmo que sente, sem dúvida. Tenho da cobiça, do roubo, das atitudes dos outros, da morte.
- Vejo que me compreende.
- Compreendo a sua preocupação e a sua tristeza. Mas o que poderá fazer?
- Não sei... Não sei... - e a minha voz esvaia-se por entre pensamentos, tremores e dores.
Levanto-me, atiro o cigarro para a lareira, pego no casaco e saio, deixando o Dr. Fernandes com os olhos fitos no fogo e, talvez, no crepitar da madeira.

Poetriceria II - O início da dor

A cabeça palpita terrivelmente. Traz, traz... Traz, traz... Forte, ritmado e entorpecedor. Abro mão do pensamento, desloco-me para a cama deste quarto escuro, frio, sombrio e sujo.
Deito-me, dobro-me. Traz, traz... Traz, traz...
Esta dor é lacinante. Abro mão do pensamento mas não me abro a ninguém. Quieto!
- Não te mexas e respira fundo, pausada e com suavidade. É o stress... - aconselhou o doutor.
Besta quadrilátera que pensa saber tudo. Não és mais nem és maior. Não te dou esse prazer, esse gozo superior. Traz... traz...
Arrrggggggghhhh!!!!!!!!!! Sou mais que este corpo, que os sentidos, que a vida!

Poetriceria

Gosto do meu quarto desarrumado e escuro.
Sinto-me livre e posso pensar que estou a voar, que estou a conduzir um barco no horizonte, sem nada nem ninguém por perto. Somente a brisa e o silêncio audível das ondas a bater no casco. Dorme para retomar a labuta.
Aprecio a agonis e vivê-la-ei até ao cabo dos dias, que está para breve, como para breve está o tropeçar e cair.
Não posso.